Entrevista com a psiquiatra Simone Paes: Esquizofrenia

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O site NewsInfoco esteve no Instituto da Psique, em Alagoinhas, para conversar com a Dra. Simone Paes sobre esquizofrenia. Então se você conhece um parente ou amigo esquizofrênico, ou mesmo se tem curiosidade sobre o assunto, preste atenção nessa entrevista, exclusiva, que a Dra. Simone Paes concedeu ao site NewsInfoco, o site que mais cresce em Alagoinhas e Região. Acompanhem:

NEWSINFOCO: Dra. Simone Paes o que é a esquizofrenia?

Dra. Simone: A esquizofrenia é um distúrbio psíquico caracterizado primordialmente por uma alteração no pensamento. Esse pensamento que de inicio se desenvolve um delírio e por conta desse delírio inaugura o aparecimento de uma segunda personalidade. Uma vez surgindo essa segunda personalidade, o sujeito passa a ter alucinações, alterações de comportamento, tudo compatível com essa segunda personalidade que surge.

NEWSINFOCO: Em que faixa etária a esquizofrenia se manifesta? É na infância, na juventude…

Dra. Simone: A esquizofrenia tem seu inicio na adolescência e por toda a fase adulta, sendo que quando ela se instala na adolescência, ou seja, antes dos 18 anos, nós temos um quadro mais grave. Como na adolescência o sujeito está no período de formação psicológica, existe uma desorganização muito grande, com perdas de capacidades adquiridas e uma retroação de comportamento. Isso quer dizer que o sujeito passa a ter o comportamento característico de idades anteriores. Isso compromete e muito a evolução da vida desse sujeito. Após os 18 anos os tipos de esquizofrenia que se apresentam são mais fáceis de controlar. O sujeito está mais estabilizado em sua estrutura psicológica e a gente tem condições de controlar esse transtorno, fazendo com que o paciente volte a ter uma vida normal.

NEWSINFOCO: Quais são as principais causas da esquizofrenia?

Dra. Simone Paes: A causa está ligada a orientação. É uma junção da falta de orientação com a passividade do sujeito. Toda criança, todo adolescente, precisa ser orientado pelo pai e pela mãe, saber o que precisa e o que não precisa fazer.  Acontece que muitas vezes há conflitos entre esse pai e essa mãe, o que pode ao invés de orientar, deixa-lo confuso. Outras vezes há realmente a completa falta de orientação. Essa negligencia na orientação juntamente com a passividade do sujeito, uma espécie de predisposição à esquizofrenia, faz com que esse distúrbio comece a se manifestar. Vale ressaltar que essa agressividade que surge no esquizofrênico tem tudo haver com que ele passava antes, portanto se quando menor ele sofria muita violência física, quando a outra personalidade assumir (a personalidade proveniente da esquizofrenia), vai ser uma personalidade forte, que possa se impor diante da agressão. Se no caso ele quando criança foi muito influenciado por questões religiosas, quando crescer ele irá desenvolver uma personalidade na qual ele será um beato, ou Jesus ou coisa do tipo.

NEWSINFOCO: Quais são as características de um esquizofrênico?

Dra. Simone: Retraimento. Sujeitos que não tem contato com o outro. É aquele sujeito que nunca teve amigo, nunca teve namorada, é de casa para o trabalho, do trabalho pra casa, ou seja, não tem vida social.

NEWSINFOCO: Outros transtornos psicológicos podem se transformar em esquizofrenia? Por exemplo, quem tem o transtorno da paranoide, da dependência, pode vim a desenvolver a esquizofrenia?

Dra. Simone: Não, são coisas separadas. Na verdade paranoide é um tipo de esquizofrenia. Há vários tipos de esquizofrenia, entre elas a esquizofrenia paranoide.  Outros transtornos, como o transtorno antissocial, terá outras evoluções. Não tem chance de haver uma “migração” de um transtorno para outro.  Uma coisa importante que as pessoas devem saber é que transtornos psicológicos não são doenças, pois não há nenhuma lesão corpórea. O que há é um problema de ordem psicológica. Então é errado quando as pessoas taxam a esquizofrenia como doença. Esquizofrenia é distúrbio.

NEWSINFOCO: Há quantos tipos de esquizofrenia?

Dra. Simone: Há inúmeras classificações. Os principais são a Esquizofrenia Simples, a Esquizofrenia Paranoide, a Esquizofrenia Hebrefênica e a Esquizofrenia Catatônica. O mais comum, a que todo mundo conhece, é a do tipo Paranoide que é marcada pelas alucinações, mania de perseguição, agressividade, agitação. É o que nós classificamos como esquizofrenia produtiva, porque a gente consegue identifica-la, o sujeito expõe que está ouvindo vozes, que está vendo coisas e tal. Isso é diferente da Esquizofrenia Catatônica, pois embora o sujeito tenha os mesmos sintomas, quando vem a crise, ele fica paralisado que nem estatua, ali ele não come, não bebe, não faz xixi, não defeca, se ele estiver de olho aberto, vai ficar de olho aberto o tempo todo, se você segura-lo vai parecer que está segurando um bloco, ou seja, há limitação motora. O risco dessa esquizofrenia Catatônica é que, apesar de ele estar sofrendo com as alucinações e os delírios, ele está imobilizado, então na hora que ele sair da crise, vai estar em completo desespero e vai voar no pescoço do primeiro que ele ver. Isso, inclusive, eu já presenciei várias vezes em Hospitais psiquiátricos e é perigosíssimo. Temos também a Esquizofrenia Hebefrênica, que é a que ocorre na adolescência, e temos a Esquizofrenia Simples, que embora tenha “simples” no nome, não é tão simples, porque é difícil de identificar. A esquizofrenia simples é caracterizada naquele sujeito que do nada sorrir ou chora e que fala sozinho, por exemplo. É difícil de identificar, porque são características que fazem parte de nosso dia-a-dia. Se você está perto de alguém e ele começa a sorrir do nada, você pode pensar “Olha, ele se lembrou de uma piada”, se você vir alguém chorar do nada, você pode pensar “Ele deve estar passando por alguma dificuldade” e no caso de falar sozinho, quantas vezes a gente fala com nós mesmos né, “pensando alto” como dizem.  

NEWSINFOCO: E como é o tratamento para uma pessoa que sofre o distúrbio da esquizofrenia?

Dra. Simone: O tratamento é à base de medicamentos. Ainda não temos a cura da esquizofrenia. É um distúrbio crônico, a cada episodio agudo há uma perda cognitiva, há uma desorganização no pensamento. Por exemplo, se no primeiro surto ele saiu 99%, no segundo surto ele já vai ficar com menos. Então a gente trabalha para que ele tenha menos surtos. O paciente tem que usar medicamentos e é muito importante também ele participar de terapias. O esquizofrênico está psicologicamente enfraquecido e a gente tem que fortalecer ele, isso se dá por meio das terapias. Eu tenho pacientes esquizofrênicos que são acompanhados por psicólogos e vive normalmente, ninguém diz que são esquizofrênicos.

NEWSINFOCO: Com relação a esquizofrenia como estão as estatísticas?

Dra. Simone: A estatística ela é pequena. Dentro dos estudos psiquiátricos gira em torno de 2%, mais em homem do que em mulher, proporção de dois para um. Infelizmente estamos observando, embora as estatísticas se mantenham estáveis, um aumento nos casos de esquizofrenia justamente pela falta de orientação. Nós estamos com duas gerações que não sofreram essa orientação. O pessoal que hoje tem 40, 30 anos já não tiveram a orientação que o pessoal que hoje tem 50 anos tiveram. Muita gente não teve essa orientação do “pode e não pode”. Atualmente essa falta de orientação é explicita. Há uma negligencia com relação à orientação ético-moral na família. Você percebe que essas gerações mais novas tem pouco poder de decisão, são indecisas, você multiplique isso por 10 e vai entender o sofrimento que passa uma pessoa com estrutura esquizoide.

NEWSINFOCO: A Desigualdade Social influencia no desenvolvimento desse distúrbio?

 Dra. Simone: Não. Tanto o rico como o pobre está suscetível à esquizofrenia.  Essa questão da desigualdade social fica restrita só à parte filosófica, porque se você analisar bem, hoje, tanto as mães quanto os pais estão saindo para trabalhar, isso independente da classe social, e os filhos estão ficando, mas eles não ficam mais com os avós ou com os tios. As crianças ficam com uma outa pessoa que não é da família, que às vezes está ali pra cuidar só da casa e de quebra ainda tem que cuidar dos filhos do patrão. Então acaba a criança não tendo atenção.

NEWSINFOCO: Quais as precauções que uma pessoa que convive com um esquizofrênico deve tomar?

Dra. Simone: Primeiro nunca vacilar, nunca interromper a medicação. Enquanto a gente não tiver a cura duas coisas são importantes no uso dos medicamentos: primeiro para que o paciente não tenha mais surtos e um consequente empobrecimento do conteúdo de pensamento, além do empobrecimento de seu contato social; segundo que sem o remédio, ele volta a ter as alucinações, os delírios e existe um tipo de alucinação que é extremamente arriscada, a gente chama de alucinação auditiva imperativa, é que nem uma ordem de quartel, o esquizofrênico, em meio a essa alucinação, pode ouvir uma voz que mande matar o pai ou mãe e ele vai lá e mata. Então é um grande perigo alguém que tem um paciente esquizofrênico dentro de casa interromper o tratamento, porque ele pode fazer isso com alguém da família ou com alguém de fora. E outra coisa que muitas o pessoas não sabem é que quando esse esquizofrênico mata alguém ou comete algum delito, ele vai preso. As pessoas pensam que ele vai ser absorvido por ter esse distúrbio e ele não vai. Esse esquizofrênico em regra deveria ficar em algum manicômio, os hospitais de custódia, mas como estes são insuficientes e estão fechando, o esquizofrênico acaba que indo para o presidio mesmo! Eu já atendi alguns pacientes psiquiátricos em presidio comum e é uma verdadeira tortura, porque o presidio comum não tem estrutura para cuidar de um esquizofrênico.  

NEWSINFOCO: O esquizofrênico medicado, ele pode viver uma vida normal? Ir à faculdade, ir ao cinema, etc.

Dra. Simone: Com certeza.

NEWSINFOCO: Não tem risco dele de repente surtar no local?

Dra. Simone: Se ele usar a medicação certinha, não tem risco nenhum. Tenho pacientes que tem família, filhos, mulher, trabalham… Convivem normalmente. Sai, viaja. Vive uma vida normal.

NEWSINFOCO: É mito ou é verdade que a esquizofrenia também pode ser adquirida através da genética?

Dra. Simone: É verdade. Não é uma coisa determinante. Por exemplo, se uma pessoa que tem casos de esquizofrenia na família tiver um filho ele não obrigatoriamente vai nascer esquizofrênico, mas terá uma probabilidade maior do que uma família que não tem casos de esquizofrenia.

NEWSINFOCO: Qual o conselho que a senhora dar para que as pessoas não venham a sofrer com a esquizofrenia?

Dra. Simone: A primeira coisa é com relação ao pai e a mãe. Tem que fazer o seu papel de pai e de mãe, tem que ter responsabilidade e cuidar de seus filhos. Segundo, o pai e a mãe tem que sentar e discutir o que vai permitir e o que não vai permitir pra esse filho, porque é muito importante passar essa firmeza para que os filhos tenham esse poder de decisão na vida. Se você tem um filho que é retraído leve ao psicólogo para que ele possa ser avaliado, pois quanto antes for descoberto esse distúrbio, mais chances nós temos de impedir que ele venha a ter surtos e uma consequente perda cognitiva.  

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1 comment

  1. Ana Angelica Responder

    Perfeito e de fácil entendimento os esclarecimentos da Dr. Simone sobre esse distúrbio que afeta algumas pessoas e que as famílias se negam a procurar ajuda por achar que sozinhos vão superar. Parabéns newsinfoco pela bela entrevista!

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