“O trauma emocional sofrido por uma mulher agredida pode vir a desenvolver nela distúrbios psicológicos”, adverte a psiquiatra Simone Paes

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O site NewsInfoco esteve no Instituto da Psique, situada na Rua Joel Carvalho, centro de Alagoinhas, para conversar com a psiquiatra Dra. Simone Paes sobre a violência doméstica. Quais os efeitos psicológicos sobre a agredida, qual o perfil psicológico de um agressor, quais as consequências para as crianças que presenciam essas agressões, perguntamos tudo isso e muito mais para a Dra. Simone. O resultado dessa entrevista você acompanha, na íntegra, a partir de agora:

Newsinfoco: Quais os traumas que ficam numa mulher que sofreu violência doméstica.

Dra. Simone: O primeiro impacto que se observa é que a mulher fica assustada, se sente intimidada, inferiorizada, incapaz de seguir a vida normalmente, de organizar a própria vida. Tudo se torna ameaçador, difícil, mesmo porque os companheiros que cometem as agressões não tem medo da lei. É claro que veem que existe a impunidade, a mulher fica com medo de denunciar esse companheiro, pois sabe que ele a qualquer momento pode encontra-la e agredi-la novamente. Emocionalmente falando, muitas mulheres deprimem, às vezes pensam em por fim a própria vida, porque essa situação é muito estressante.

Newsinfoco: Esses traumas emocionais podem vir a ocasionar sequelas psicológicas nas mulheres vítimas de violência doméstica?

Dra. Simone: A sequela emocional maior é a angustia. Agora, se essa mulher tiver uma estrutura de personalidade que já tenha predisposição a um ou outro distúrbio, ela pode desenvolver esquizofrenia. Uma pessoa neurótica, que não tem estrutura psicótica, ela não vai desenvolver esquizofrenia, mas ela vai sim ficar insegura com a proximidade de qualquer pessoa, isso é uma segurança real, porque ela nunca sabe a pessoa que vai aborda-la, ela também ficará sempre vigilante com quem vai se aproximar dela.

Newsinfoco: Existe um perfil psicológico comum entre os agressores?

Dra. Simone: O que existe em comum nesses homens agressores é acreditar que a mulher é uma posse deles. A criação desses homens é onde está a chave do problema. O garoto, muitas vezes, é criado para não respeitar as mulheres e quando for adulto vai externar isso. Tem até mulheres que são machistas, que exaltam o poder do homem sobre a mulher, isso acontece muito.

Newsinfoco: A senhora como psiquiatra, acredita que a reabilitação, o tratamento psicológico, é mais indicada para os agressores ou a prisão é a melhor forma para tratar desses homens que agridem suas parceiras?

Depende do nível de lesão, é isso que a justiça vê. Uma ameaça é crime previsto em lei, se esse sujeito passa da ameaça pra uma agressão física já e um outro crime, se o juiz dá uma ordem de afastamento por medida protetiva, já é um outro crime, se ele desrespeita uma ordem judicial já é mais grave e se ele não respeita a lei máxima que é a ordem do juiz, ele precisa ser preso, pois, ele já extrapolou os limites. Se desrespeita um juiz, imagine a mulher.

Newsinfoco: Com relação aos filhos do casal, quais os problemas que as crianças podem adquirir ao presenciar as agressões?

Dra. Simone: Nós temos também uma variação de impacto, dependendo do grau de agressividade. Tem crianças que chegam aqui na clinica de 10, 11 anos, que chegam deprimidas pensando em se matar, porque não suportam ver as brigas e agressões, não suportam ver mais o pai bater na mãe quando o pai chega alcoolizado, quebrando tudo… Então, quando vê uma criança falando que quer morrer é porque o problema já esta gravíssimo. Perpassa por algo mais suave quando têm conflitos eventuais, esses filhos não chegam a pensar em morte, mais ficam aflitos, perguntam a mãe porquê não separam do pai, essas crianças sofrem muito. Essa agressão que as crianças presenciam por anos e anos geram na personalidade dos filhos grande sofrimento. Como exemplo, meninas dizem que não querem casar nunca pra não passar esse sofrimento que viram a mãe passar. Os traumas nessas crianças afetarão a sua personalidade, sem duvidas.

Newsinfoco: A relação do álcool com as agressões é uma desculpa do agressor ou realmente o álcool pode estimular a agressão?

Dra. Simone: O álcool não transforma ninguém. O álcool do ponto de vista psicológico, ele coloca o SUPEREGO pra “dormir”, ele te permite fazer o que a pessoa queria realmente fazer. Tudo depende da educação em que o homem é criado. Então tem homem que tem um conflito com a mulher, está chateado com a mulher, mas ele pondera que não vai poder agredir, não tem prova nenhuma, e quando o homem vem de uma formação familiar diferenciada ele vem procurar ajuda nos ciúmes patológicos, porque diz que a mulher vai do trabalho pra casa, mas morre de ciúmes, e por isso ele procura ajuda de um especialista. Mas o homem que não tem essa educação de ponderar a conduta de acordo com o que ele está vendo, ele vai recorrer ao álcool, ao se chatear com a mulher, ele bota o SUPEREGO pra “dormir” e vai no ID, parte para a ignorância, agressão O álcool potencializa o que há dentro dele, os ciúmes, a chateação com a mulher… O álcool libera essa raiva que já possuía da companheira.

ID: Constitui o reservatório de energia psiquica, é onde se localizam as pulsões de vida e de morte. As características atribuídas ao sistema incosciente. É regido pelo princípio do prazer (Psiquê que visa apenas o prazer do indivíduo).
EGO: É o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as ordens do superego. A verdadeira personalidade, que decide se acata as decisões do (Id) ou do (Superego).
SUPEREGO: Origina-se com o complexo do Édipo, apartir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. (É algo além do ego que fica sempre te censurando e dizendo: Isso não está certo, não faça aquilo, não faça isso, ou seja, aquela que dói quando prejudicamos alguém, é o nosso “freio”.)

Newsinfoco: Mesmo com o advento de leis mais rigorosas de punição aos agressores, ainda presencia-se muitos casos de agressão. O que ainda está faltando para um melhor resultado na diminuição desses casos?

Dra. Simone: Agilidade das forças de proteção da mulher. É comum a mulher ter que denunciar várias vezes o agressor até a policia atender o seu chamado de socorro. A mulher fica com medo do companheiro, se sente ameaçada em denunciar novamente alguma outra ameaça ou agressão. A mulher precisa denunciar, claro, mas a Justiça precisa agir já no primeiro caso de ameaça, pois quando se abre um processo o agressor já toma um impacto, que sabe que pode sofrer alguma sanção. A justiça precisa também agilizar esses processos para a mulher se sentir mais protegida, vê que tem alguém ao seu lado lhe protegendo.

Newsinfoco: Qual o conselho que a senhora dá para essas mulheres que estão sofrendo alguma violência doméstica?

Dra. Simone: A gente precisa confiar nas estruturas que estão sendo criadas, denunciar a agressão verbal, a agressão física, denunciar tantas vezes quanto for necessário, porque isso em um processo tem peso, a intensidade que a vítima dá essas queixas, o juiz vai ver que ela já sofre constantemente nas mãos desse companheiro. É preciso ter o registro das agressões para a justiça, a policia, saber dessas agressões, para que possam agir no rigor da lei. A lei Maria da Penha foi de grande importância nessa defesa da mulher, mas a agilidade nos processos é muito necessária para essa mulher se sentir mais segura para poder viver. É uma luta de todos, de mulheres, e homens também, que respeitam as mulheres.

 

 

 

 

 

 

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