Como foi a primeira greve geral do Brasil, há 100 anos

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A paralisação de 28 de abril entrou para a história. Movimentos populares e centrais sindicais convocaram a população a protestar cruzando os braços – e contaram com a adesão de várias categorias. A lista é grande, e contempla trabalhadores do transporte público, educação, comércio e setor de serviços. Dentre os principais motivos, estão a reforma da previdência, o pacote de mudanças nas leis trabalhistas e ampliação da terceirização propostos pelo governo Temer.

Já estamos há mais de 20 anos sem uma grande greve geral. Na de 1996, durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, cerca de 12 milhões de trabalhadores pararam. E esses números ficam pequenos se olharmos para o que aconteceu sete anos antes. A inflação, que no governo Sarney atingia níveis estratosféricos, motivou a maior greve que o Brasil já teve. Em 14 e 15 de março de 1989, quase metade das capitais brasileiras ficaram sem seus serviços básicos. Estima-se que 70% da população economicamente ativa do país tenha paralisado as atividades.

Diferentemente destas, a primeira greve geral brasileira não tem como pano de fundo um cenário de recessão. A paralisação partiu de um movimento operário em uma fábrica de São Paulo, e depois conquistou outras cidades do sudeste e sul – em um momento em que a economia ia muito bem, obrigado.

Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1917), os produtos brasileiros passam a substituir os importados, e também a ser mais requisitados lá fora – o que acelerou a produção industrial. E esse aumento da demanda piora drasticamente as condições de trabalho: além da jornadas que podiam ser de até 16 horas diárias, direitos como descanso semanal remunerado e férias pagas simplesmente não existiam. Somava-se ao cenário condições insalubres, trabalho infantil indiscriminado, e baixo salários, principalmente para mulheres e crianças.

Toda essa situação ganha outro peso em junho de 1917, quando operários do Cotonifício Crespi reivindicam aumento de salário – que, dadas as circunstâncias, obviamente não veio. A fábrica têxtil, localizada no bairro da Mooca, zona leste da capital paulista, contava com cerca de 400 funcionários – a maioria descendente de imigrantes italianos. Inflamados pelo espírito da época (que promovia na Rússia a primeira revolução essencialmente popular), os trabalhadores decidem paralisar suas atividades.

A polícia é mobilizada para dar conta dos grevistas, o que causa vários confrontos e depredações no entorno das fábricas e bairros fabris – aumentando a visibilidade da greve. Ao fim de junho, o movimento ganha adesão dos 1500 funcionários de outra fábrica têxtil, localizada no bairro vizinho do Ipiranga. Daí para a greve se tornar geral foi um pulo: logo se juntaram também trabalhadores do setor de móveis do Brás, área central da cidade, e da fábrica de bebidas da Antarctica.

Nessa mesma região, acontece o incidente mais emblemático do período. Durante um dos confrontos com a polícia, morre o sapateiro espanhol José Martinez, de 21 anos. Seu enterro, no dia 11 de julho, vira uma grande manifestação pelos direitos trabalhistas, em que comparecem mais de 10 mil pessoas. São Paulo, no dia seguinte, para por completo. Serviços gerais são interrompidos e o comércio fecha as portas por conta dos saques constantes que sofriam. Isso faz com que o movimento ganhe outras cidades e saia do estado.

“A partir daí, a greve se alastrou para quase todas as cidades do interior de São Paulo. Campinas, Piracicaba, Santos, Sorocaba, Ribeirão Preto. Até Poços de Caldas, no sul de Minas, que não era uma cidade industrial, teve movimentos de greve”, explicou o historiador Claudio Batalha, da Unicamp, em entrevista à BBC Brasil. Rio de Janeiro e certas cidades do Rio Grande do Sul também participam.

A greve em São Paulo só acaba mesmo em 16 de julho, por meio de um acordo entre representantes dos trabalhadores e industriários, mediado por jornalistas da época. Entre as pautas trabalhistas que ganhavam força, estão também motivações de cunho mais político, como a libertação de operários presos por conta do movimento, e o respeito ao direito de associação entre os trabalhadores.

Os ânimos foram se esfriando aos poucos, e as atividades voltavam ao ritmo normal conforme as condições iam sendo negociadas com os patrões de cada setor. Como as coisas eram resolvidas na conversa, sem exatamente serem mantidos acordos oficiais, as mudanças eram um tanto maleáveis. Assim, as condições dos funcionários – como a sonhada jornada de oito horas – eram ouvidas durante algum tempo, mas voltavam a ser problemáticas logo depois.

Com a experiência da classe dos trabalhadores na greve geral de 1917, essas mudanças passam a ser acompanhadas mais de perto. Ganham ainda mais força as federações, associações de trabalhadores e sindicatos. Esses movimentos têm papel fundamental na consolidação da CLT, em 1943, durante o governo Vargas, e permanecem até hoje enfáticos na defesa de melhores condições aos trabalhadores – e de seu direito de greve.

Fonte:Superabril
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