São João: Identidade, tradição e movimento cultural no Nordeste

373 0
373 0

Com a fogueira queimando, o chapéu de palha e o forró ganham destaque. As festividades juninas acontecem em todo o país e colorem diversas regiões com as bandeiras, balões e vestimentas típicas. Entretanto, é no Nordeste que o São João ganha destaque por sua extensão, pelo envolvimento popular e pela realização dos maiores festivais do Brasil. O ciclo junino é “de natureza agrária e pagã, incorporado à tradição religiosa”, segundo define o Tesauro de Folclore e Cultura Popular Brasileira. Durante esse período, santos católicos são homenageados e também é comemorado o tempo de colheita do milho.

A origem da festa junina está relacionada ao período colonial, um costume trazido pelos portugueses, que já comemoravam o São João. No Brasil, as festividades juninas ganharam força, incorporaram-se à cultura popular e são vivenciadas, principalmente, pelo nordestino. “Junho é enaltecido pelo imaginário junino, que acompanha os santos – São José, Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo, que está um pouco esquecido. O mês é totalmente envolvido com a culinária do milho e toda a fase da colheita para os festejos”, explica a socióloga e coordenadora de Estudos das Culturas Populares Mário Souto Maior, da Fundação Joaquim Nabuco, Rubia Lossio.

Segundo Lossio, o nordestino mantém, por conta da sua história, as questões tradicionais e simbólicas presentes no seu cotidiano e as festas juninas representam essa relação. “A riqueza do nosso imaginário é bastante cultuada, porque o símbolo é o primeiro sentimento que existe no imaginário popular. É a expressão estética do divino. O nordestino tem essa representação afetiva com o símbolo porque é o primeiro sentimento. A vivência nesse período é bem referenciada por conta dessa ligação com os santos e com o período da colheita. Também há vestígios das festas pagãs, dos solstícios de verão. A gente carrega ainda essas representações que são referenciadas no mês de junho”, explicou.

No Nordeste são realizados diversos festivais e competições para a apresentação das quadrilhas. Fundada em 1990, a Federação de Quadrilhas Juninas do Ceará – FEQUAJUCE é a primeira instituição do Brasil a atuar com a organização dos movimentos juninos. No ano de 2010, uma pesquisa realizada pela organização identificou que, somente no Ceará, existiam 600 quadrilhas, 350 festivais e 35 mil brincantes.

Segundo o presidente da FEQUAJUCE e da União Nordestina de Entidades Juninas – UNEJ, Kiko Sampaio, o movimento junino envolve tradição, mas também há espaço para a economia criativa e para as atividades crescerem a cada ano. “Existe um pouco de diversidade entre os estudiosos a respeito do que é tradicional no São João. Mas, hoje, 80% das pesquisas apontam que as tradições fazem parte de um processo constante, por isso as quadrilhas se mantêm. Agora, elas trazem cenários e temas pesquisados, como as escolas de samba. Trazem mais brilho e colorido e traduzem seus estilos. Também é um processo de transformação dessa identidade”, disse.

O Nordeste, neste período, se veste para o São João. As influências estão no cotidiano e as cidades se movimentam em torno dos festejos. Esse é o caso do município de Campina Grande, na Paraíba, que promove o Maior São João do Mundo. Os festejos da região começaram há 30 anos. Atualmente, o São João de Campina Grande dura 30 dias, com 24 horas de eventos diários em vários pontos da localidade. As atrações acontecem no Parque do Povo, conhecido como Quartel General do Forró, um espaço que tem 42 mil metros quadrados.

Há 20 anos, Campina Grande (PB) competia apenas com Caruaru (PE) na organização das festividades. Atualmente, existem festas juninas em todo o Nordeste. A cidade pernambucana conhecida como a capital do forró recebe, de acordo com a prefeitura, mais de 1,5 milhão de turistas. O movimento gera R$ 200 milhões e emprega cerca de 6 mil pessoas. O São João de Caruaru também tem suas atividades realizadas durante 30 dias, com mais de 2 mil shows e 32 eventos culturais.

O São João de Campina Grande visa propagar a cultura popular nordestina com apresentações artísticas, comidas típicas, teatro. Nesta edição, o Memorial do Maior São João do Mundo, criado e organizado pela professora Cléa Cordeiro, é parte da programação cultural. “O objetivo do memorial é resgatar a cultura e fazer com que as pessoas relembrem a origem do São João. Os que não viveram essa época, podem passar a conhecer. É uma forma de preservar e manter vivas as nossas tradições”, explica Cordeiro.

Segundo Cordeiro, para os nordestinos a festa junina chega a ser mais importante que o próprio Natal. “A festa é muito nossa, muito brasileira e nordestina, algo que só tem aqui. Quando a gente passa um tempo fora, é o que faz mais falta. Além de gerar essa identidade é uma festa para qualquer faixa etária, todo mundo se diverte e toca diretamente o coração das pessoas. Nas escolas, grupos e empresas, todos se sentem prazerosamente obrigados a fazer a sua comemoração junina”, conta.

 

Fonte:Blogacesso
Compartilhe
In this article

Join the Conversation

+
+