Festival Internacional de Artes Cênicas celebra dez anos com postura provocativa

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Se há dez anos, quando o Festival Internacional de Artes Cênicas (Fiac) foi lançado, a expressão “causar” estivesse na moda, ela provavelmente poderia ser empregada para descrever o que, desde então, ele vem fazendo: estimular, de forma provacativa, artistas e público. 

Para celebrar a primeira década de existência, o Fiac se propõe a pensar o seu próprio tempo. Racismo, refugiados, relações desiguais entre homem e mulher, exploração colonial, intolerância religiosa, diversidade sexual. Tudo está lá.

“Essa marca dos dez anos nos coloca um questionamento sobre o tempo, sobre a nossa forma de contar histórias durante esses anos. Este é um festival promotor de outras visões de mundo, de outras narrativas. E, de certo modo, ao questionar, a gente provoca o por vir”, diz Felipe Assis, diretor e coordenador geral do Fiac.

 Ao explorar a linguagem visual, espetáculo Extraños Mares Arden (Chile) mostra como grandes fortunas financiam a arte através da exploração de pequenas comunidades no Deserto do Atacama (Foto: Divulgação)

Lançando a pergunta “Quem vai contar sua história?”, o festival leva a diversos espaços culturais de Salvador 19 espetáculos de hoje até domingo, que têm em comum o engajamento e comprometimento em torno de questões de identidade, gênero e política, seja a partir das temáticas ou dos processos pelos quais foram elaborados.

Foram selecionados espetáculos da Alemanha, Espanha, Chile, África do Sul e Suíça, além de montagens nacionais de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, e dez produções baianas.

Abertura
Quem for conferir a abertura  hoje à noite terá de escolher entre dois espetáculos que vão acontecer simultaneamente, às 20h, em dois espaços da cidade: Black Off, no Teatro Sesc-Senac Pelourinho; ou Para Que o Céu Não Caia, no Teatro Vila Velha.

“Tivemos que colocar os dois espetáculos ao mesmo tempo para contemplar o máximo de pessoas que quisesse conferir a abertura. Apesar de ter de se fazer uma escolha, as duas peças são fantásticas e serão reapresentadas em outras datas”, lembra Assis.

Quem quiser esticar um poquinho,  a noite será de festa na Arena do Sesc-Senac Pelourinho, com um show do Quabales, a partir das 21h30.

Do mundo todo
Estrelado pela atriz e performer sul-africana Ntando Cele, Black Off é um dos quatro espetáculos internacionais da edição. Nele, Ntando assume o seu alter ego Bianca White, uma apresentadora viajante do mundo que julga ter um conhecimento profundo sobre negros e quer ajudá-los a superar a sua “escuridão interior”. “Eu acho que mesmo que Salvador tenha origens históricas ricas e perturbadoras o suficiente em relação à escravidão, a discussão sobre a descolonização é relevante”, opina. Provocador, o espetáculo aposta no humor como um lugar de reflexão. “Quando as pessoas riem, elas baixam a guarda e talvez fiquemmais receptivas a olhar para si mesmas“ opina. 

Segundo a atriz, que já apresentou a peça em vários lugares do mundo e chega a Salvador com o apoio da fundação suíça Pro Helvetia, apesar do tom desconcertante, “os negros da plateia geralmente reconhecem a ignorância de Bianca White em nome da ajuda e do desenvolvimento do ‘outro’”. 

Grande referência da dança contemporânea brasileira, Cia. Lia Rodrigues apresenta hoje a montagem Para Que o Céu Não Caia, no Teatro Vila Velha (Foto: Divulgação) 

Outro grande destaque (e novidade) do Fiac este ano é o espetáculo Brasil em Casa – Home Visit Salvador, do coletivo alemão Rimini Protokoll. Em vez de ambientes cenográficos, a montagem acontece dentro de residências reais. “Fizemos um chamado nas redes sociais em busca de locais que pudessem sediar as apresentações. Ficamos impressionados com o número de pessoas que ofereceram suas casas, 40 no total, mas tivemos de escolher somente cinco”, explica Assis. Os endereços selecionados foram Rio Vermelho, Jardim Baiano, Nazaré e Federação.

O ponto de partida do espetáculo-jogo é o questionamento sobre o que é, afinal, a república. Ao redor de uma mesa, o público tem a possibilidade de conviver e, então, discutir sobre a construção desse país. “Essa construção se dá no nível doméstico mesmo, pessoal, das narrativas anônimas que acabam se perdendo na narrativa oficial. Nessas casas , o público é dividido em dois grupos, que optam se vão cooperar ou competir entre si, relatar experiências em protestos, em discussões políticas. Esse jogo serve para somar dados que depois ficam disponíveis no site desse projeto, que começou na Europa, e está passando por vários lugares no Brasil“, sintetiza Assis.

Daqui
Escolhido para a abertura do Fiac, a montagem Para Que o Céu Não Caia (RJ) é uma resposta contemporânea à antiga profecia ianomâmi sobre como se dará o fim do mundo. Espetáculo da Cia. Lia Rodrigues, uma das maiores referências da dança contemporânea brasileira no exterior, o espetáculo mergulha no mito do fim do mundo relatado pelo xamã Yanomami Davi Kopenawa no livro A queda do céu, para imaginar formas de continuarmos – e agirmos –  num mundo aparentemente sem controle.

Alvo de polêmica e até de proibição pela Justiça de São Paulo, o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu é um dos mais aguardados da edição. A peça traz a atriz e travesti Renata Carvalho interpretando Jesus personificado numa mulher. “A ideia de uma peça como essa, por exemplo, não é profanar, mas lembrar que as religiões são espaços de amor e não de ódio”, diz o curador. 

Monólogo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu  traz Cristo ao tempo presente, na pele de uma travesti (Foto: Divulgação)

Dentre os espetáculos baianos selecionados, está Eu É Outro: Ensaio Sobre Fronteiras, que será apresentado amanhã, às 18h, no Teatro Gregório de Mattos. A montagem estreou em abril no Teatro Martim Gonçalves, mas já foi encenada no Gregório de Mattos durante o Festival Latino Americano de Teatro da Bahia. “Fizemos algumas alterações por conta do espaço, já que o espetáculo dialoga muito com a arquitetura de cada local”, diz o diretor Marcus Lobo. No salão, dez atores interagem com o público, com projeções e muitos dispositivos tecnológicos e propõem uma discussão sobre fronteiras, distâncias e conexões entre eu e o outro. 

“Precisamos diminuir distâncias e ultrapassar barreiras. As tecnologias não resolvem relações, essa coisa mais carbônica, mas encurta distâncias”, comenta Lobo, que também relaciona a discussão à crise dos refugiados, considerada uma das maiores crises humanitárias do século.

Com videoprojeções gravadas e ao vivo, Eu é Outro: Ensaio Sobre Fronteiras discute fronteiras no mundo contemporâneo (Foto: Divulgação)

Além de  Eu É Outro: Ensaio Sobre Fronteiras, serão apresentados no Fiac os espetáculos baianos Kaiala, O Outro Lado de Todas as Coisas, Godó, o Mensageiro do Vale, Entrelinhas, Egotrip – Ser Ou Não Ser? Eis a Comédia, Reação em Cadeia: A Gente Se Liga em Você!, ISTC – Isaura Suélen Tupiniquim Cruz e Biblioteca de Dança.

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