Hacker revela histórias de autoridades a presos famosos da Papuda

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A tarde de 20 de agosto, uma terça-feira, foi de comemoração no Bloco F do Complexo Penitenciário da Papuda. Tudo porque o hacker Walter Delgatti Neto, acusado de acessar conversas em celulares das principais autoridades da República, tinha acabado de se matricular numa instituição de ensino particular de Brasília. Conhecido como Vermelho e preso na Papuda desde 3 de agosto, Delgatti virou a maior atração da chamada Ala das Autoridades. Trata-se de uma parte especial do presídio que costuma receber políticos famosos, encarcerados por corrupção, e também os considerados vulneráveis. Vermelho fez logo amizade com Geddel Vieira Lima, ministro dos governos Lula e Temer. Desde quando foi preso, segundo uma pessoa próxima, Delgatti vem sendo procurado por políticos e autoridades que estão presos na mesma ala que ele, na Papuda, para contar o que leu nas conversas interceptadas. O que no início assustou, virou o maior passatempo e diversão do hacker: as rodas de conversa para falar sobre as mensagens das autoridades – algumas delas revelando segredos da República. Quando conseguiu se matricular no curso à distância de Direito, recebeu parabéns de colegas. Nos banhos de sol e nas horas que passam no pátio, a atenção dos políticos geralmente é voltada para Delgatti, que grampeou autoridades como o ministro da Justiça, Sergio Moro, e procuradores da Lava Jato. O Bloco F da Ala G da Papuda é conhecido por receber autoridades e políticos presos por corrupção, inclusive em decorrência da atuação dos procuradores da Lava Jato, que Delgatti grampeou. O empreiteiro Sérgio Cunha Mendes, um dos donos da Mendes Junior, também está preso nessa ala. Daí vem o interesse central desses presos pelo que o hacker tem a contar. Como Delgatti tem uma “excelente” memória – reconhecida até mesmo por agentes da Polícia Federal, que o interrogaram em duas ocasiões – e insiste em afirmar que leu todo o material antes de “vazar’” para o site The Intercept, as conversas no pátio da Papuda duram horas e despertam atenção e curiosidade dos presos, entre eles Geddel. Ex-ministro dos governos Lula e Temer, Geddel foi preso em 8 de setembro de 2017 após a apreensão de R$ 51 milhões em dinheiro vivo em um apartamento, em Salvador, no âmbito da Operação Tesouro Perdido. Também já estiveram confinados nesse mesmo bloco o ex-deputado Rodrigo da Rocha Loures, que foi assessor do presidente Michel Temer, o ex-ministro petista José Dirceu e o ex-senador Luiz Estêvão. A ala abriga hoje outros dois presos da Operação Spoofing, assim como Delgatti: Gustavo Henrique Elias Santos e Danilo Cristiano Marques. Na última semana, a Justiça Federal do Distrito Federal rejeitou soltar Danilo e Suelen Priscila de Oliveira – também presa –, apesar de a Polícia Federal ter se posicionado a favor do pedido das defesas. O Ministério Público foi contra. Empolgado com as novas amizades na prisão, Delgatti chegou a dizer, a uma pessoa que o visitou, que se sente feliz com “a oportunidade de conviver com pessoas experientes” na prisão. Presos menos conhecidos, mas com interesses nos processos da Lava Jato, também têm se aproximado de Delgatti. O hacker já confessou ter tentado invadir – a PF ainda não sabe se com êxito – até mesmo o telefone do presidente Jair Bolsonaro e de outros ministros de Estado.

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