A história e a cultura de Alagoinhas que vi e vivi – Por Paulo Dias

0
Paulo Dias

Resolvi retratar, em 10 conjuntos, fatos relevantes sobre a cultura e história de Alagoinhas(que participei ou estive envolvido), relativos a sua pujança e sobre sua luta inglória contra o desprezo do poder público. Ninguém que fez cultura nessa cidade nos anos 80 pode alegar que não me conheça, porque era um estudante de jornalismo que de boa vontade e com muito prazer freqüentei as rodas de artistas, de intelectuais da cidade e vi tudo acontecer e como aconteceu. Hoje eu sou pós-graduado em crítica cultural, e por meio desta minha coluna semanal no News Infoco quero falar um pouquinho a respeito. Vejamos os fatos:

  1. Marco Chulé – Marcão – toma um tapa de Antonio Barreto, ator da época, e desaba no palco. Depois ouve-se a celebre frase “Eu quero meu sangue e minha urina”, em protesto contra o serviço militar obrigatório. Foram meus primeiros contatos com o teatro aos 15 anos. Ouvi Led Zeppelin e Bob Marley com 10 anos. Li Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e Antonio Torres por conta própria, apanhados da biblioteca de minha mãe, professora de inglês do Estado e de colégios particulares. Com 16 anos comandei uma usina de mineração, conheci uma mina subterrânea e visitei o sertão, vi um lata de leite ninho cheia de esmeraldas em um bar em Campo Formoso, li Gregório de Matos.
  2. Fiz peça de teatro no colégio dirigida por Pitágoras Fernandes. Assisti a EQUUS com Felinto Coelho na Sala do Coro do TCA. Conheci Jorge Pô, meio hippie, recém chegado à cidade. Fui aluno de redação de Iraci Gama, no cursinho que Rui Albuquerque ensinava inglês e ouvi ele falando como gostava de ficar de bobeira no Rio Vermelho. Frequentava a casa de Luis Ramos, dia sim, dia não. Conversava na escola todos os dias com Edson Carneiro. Fui amigo também de Joseilton Tohn e de Léo Bazico. Fiz o curso de português do Raul Sá, no Gabinete Português de Leitura. Critiquei, na sala da Silveira, o projeto das Diretorias Regionais de Cultura de Capinan. Fiz oficinas de cinema.
  3. Participei do primeiro comício do PT em Salvador, na Lapinha, um dos fãs de Edval Passos. Pintei com meu irmão Antonio e sua namorada Edna(que veio a ser namorada de Luciano Sérgio) a primeira estrela do PT em um muro da cidade, no muro da nossa própria casa. Recusei um convite de Judélio Carmo para ir para o Jornal A Tarde, simplesmente porque na época era petista e queria salvar o mundo. Morei cinco anos na beira mar, tive uma horta orgânica, fundei uma creche, trabalhei no posto médico, fui professor e ajudei a colocar água no vilarejo por meio do mesmo Judélio Carmo, veja que ironia, à época chefe da governadoria de Nilo Coelho. Fui o único jornalista a escrever sobre a morte de Judélio, entrevistei Murilo Cavalcante, trabalhei com Marco Antunes e com Luciano Almeida. Fundei a primeira assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Alagoinhas e fui o primeiro assessor de fato do SAAE, quando ajudei a criar a assessoria de comunicação do SAAE. Fiz parte do Plano de Saneamento Ambiental do Município. Dormi em acampamento dos sem-terra, á época eu namorava uma lider do movimento. Morei às margens do Paraguaçu e organizei uma biblioteca de uma escola estadual à época.
  4. Fiz parte com Gavaza e Aranha da comissão pelas diretas já em Alagoinhas, que organizou o show de Lui Muritiba na Praça Rui Barbosa, em cima de um caminhão. Compus uma música com meu irmão para um festival local, e uma outra com Balbino Josh, anos depois.
  5. Vi os shows de 82/83 de Caetano Veloso, no TCA, freqüentava o auditório da reitoria, a sala de cinema Walter da Silveira e a do ICBA, comia no Grão de Arroz. Vi o único show de Raíces de América no TCA e alguns shows de Eliomar. Ouvia Os Poetas da Praça, todos os dias(morava perto da Piedade), vi os Poetas do Povo surgir, meu irmão Edson, tocando junto com meu amigo Alcides Lisboa. Vi as magníficas pinturas de meu irmão Edson e seu violoncelo, quando estudava música na UFBA, vi Alipio tocando, Lázaro Zacariades declamando, vi Roque Antonio dançando, fui aluno de alongamento dele, comi do pão de Overbeck, fiz ginástica com Augusto Moncorvo, capoeira com Humberto e Valdo, Karatê com Ocimar e tai chi chuan com Roni. Pratiquei o Yoga do De Rose. Acompanhei Litho Silva se tornar um grande artista plástico, na paz do seu sítio.
  6. Fiquei sabendo, em detalhes, de uma reunião na casa de Marco Antunes para decidir quem seria o primeiro diretor do Centro de Cultura no governo de Waldir Pires. Quando Marco Antunes resolveu colocar Alfredo Ferreira, contrariando a todos. E soube como Chiquito acabou com horas de discussão com uma frase: “vamos embora, ele já escolheu o cara”. Vi o movimento negro nascer com o amigo Chiquito, ouvi música na casa de Caúca. Alberto, Cica Andrade e sua turma ouviram punk rock na varanda lá de casa. Conversei muito com Toinho na padaria do Taizé.
  7. Vi meu irmão Nelson tocando com os Organoclorados. Joguei muita bola no time infanto de Alagoinhas Velha e no time do colégio São Francisco, joguei contra o time de Carlos Dantas, onde atuava Joaquim Neto, atual prefeito da cidade. Meu tio, Ribeiro, foi quem trouxe Américo e Merica para jogar no Atlético de Alagoinhas. Vi meu tio revelando fotografia e tocando saxofone e meu avô fazendo cela, sapato e bainha de facão, meu pai lendo, minha mãe discursando no palanque e criando um grupo feminista na cidade. Vi a oficina de tio João Lopes, pai de João Lopes e de Chico da Aquarella. Pintei o prédio da Aquarella sozinho mais Chico. Fiz vídeos com Rosivaldo.
  8. Fui aluno de teatro de Felinto Coelho, de Marcos em Catu e participei do grupo Retrate. Estive perto do Deviríneos e Moleculares, vi o Nata despontando e Hiran sempre freqüentou minha casa. Ouvi muitas palestras Espíritas de Moacir, limpei o centro espírita Fé e Luz todas as semanas durante um ano e meio, fui da Seicho-no-ie e da Messiânica. Freqüentávamos o Taizé e visitávamos o irmão Bruno e ele nos visitava. Fiz, a pedido dele, o levantamento topográfico do Vale da Esperança. Sou técnico em Mineração pela Escola da Ferbasa – Fundação José Carvalho.
  9. Fiz, por dois anos, uma pesquisa orientada por Osmar Moreira sobre o romance “Essa Terra” de Antonio Torres, depositada na Uneb com suas 160 páginas. Fui jornalista de três prefeitos Fiscina, Joseíldo Ramos e Paulo Cezar(como prestador de serviços), tive textos publicados em todos os jornais da cidade e lidos em todas suas emissoras de rádio, fui repórter da Superintendência da Previdência Social no período de Waldeck Ornélas. Fui o único repórter a entrevistar Lula na campanha em 2002, quando esteve em Alagoinhas. Fiz curso de fotografia e vídeo com Cristovão. Enfim, eu fiz parte do que de melhor existe nessa cidade, eu também sou um Forrest Gump.
  10. Atuo no site News in Foco, pesquiso Hegel, Deleuze e Lacan e vejo de longe a cultura atual tão lacrativa e sem poesia.

Paulo Dias é jornalista, graduado pela UFBA, especializado em Pedagogia e mestre em Cultura e Literatura pela UNEB. Tem passagens por vários jornais e assessorias de comunicação em Alagoinhas e Salvador. Atualmente escreve para o site News Infoco

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *