O caso de João Roma é mais delicado do que parece. Ele é, hoje, uma peça importante para ACM Neto, mas ainda não é uma candidatura suficientemente ampla para disputar uma vaga ao Senado com força real. E esse é o paradoxo: Roma precisa do bolsonarismo para existir politicamente, mas precisa ir além dele para vencer.

Na largada, Rui Costa e Jaques Wagner aparecem como os nomes mais fortes para o Senado. Ambos carregam recall, estrutura política, presença histórica no estado e associação direta ao ciclo petista que governa a Bahia há quase duas décadas. Roma, por sua vez, parte de um lugar mais estreito: tem identidade clara com a direita, tem vínculo com Bolsonaro, tem capacidade de mobilizar uma base fiel, mas ainda não furou a camada mais ampla do eleitorado baiano.

O problema de Roma não é exatamente rejeição. É desconhecimento e confinamento. Ele fala bem com quem já está dentro do campo bolsonarista, mas ainda precisa se tornar necessário para o eleitor anti-PT que não se define como bolsonarista. Esse eleitor existe, pode ser decisivo e talvez seja o território mais importante da disputa. É o eleitor que quer mudança, que vê desgaste no ciclo petista, que pode votar em ACM Neto, mas que ainda não sabe por que deveria votar em João Roma. Por isso, a história de JR precisa ser contada . Quem é esse cara ?

É aí que a relação entre Neto e Roma se torna central.

ACM Neto depende de Roma porque precisa resolver sua equação com a direita. Em 2022, parte do bolsonarismo nunca se entregou completamente à sua candidatura. Houve desconfiança, ruído e ressentimento. Para 2026, se Neto quiser chegar competitivo desde o primeiro turno — e a tendência é que a eleição seja resolvida ali, pela ausência de uma terceira via forte — ele não pode repetir esse problema. Precisa do voto bolsonarista mobilizado, convencido e sem má vontade.

Mas Roma também depende de Neto. Sem Neto, ele corre o risco de ser apenas o candidato da bolha. Com Neto, pode ser apresentado como parte de um projeto maior: não apenas o nome de Bolsonaro na Bahia, mas o senador da mudança. Essa diferença é decisiva. Uma coisa é representar um campo ideológico. Outra é parecer útil para um eleitorado mais amplo que deseja alternância de poder.

O desafio de Roma é sair da lógica da trincheira. Se sua campanha for apenas uma repetição dos códigos bolsonaristas — Lula, Bolsonaro, guerra cultural, militância digital e confronto permanente — ele pode até consolidar sua base, mas dificilmente romperá o teto. Para disputar uma vaga de verdade, precisará falar de Bahia. Segurança, emprego, impostos, custo de vida, interior, municípios, crime organizado, liberdade econômica e concentração de poder. E mostrar o que já fez por Salvador e pela Bahia !

O eleitor que pode fazer Roma crescer não está necessariamente procurando um senador ideológico. Está procurando um motivo para não entregar as duas vagas ao mesmo grupo político. E esse talvez seja o argumento mais forte contra a dobradinha petista: depois de tanto tempo no poder, o PT quer também controlar a representação da Bahia no Senado. Roma precisa se vender como contrapeso.

Essa é a linha mais promissora: não disputar apenas a fidelidade a Bolsonaro, mas disputar o sentimento de mudança. O voto em Roma precisa ser apresentado como consequência natural do voto em Neto. Se a Bahia quer trocar o governo, por que manter as duas cadeiras do Senado com o mesmo grupo que sustenta a continuidade?

A frase implícita da campanha deveria ser simples: mudar pela metade não muda.

Mas há um risco para os dois lados. Se Roma for forte demais na estética bolsonarista, pode estreitar a campanha de Neto e empurrá-lo para um lugar desconfortável diante do centro, das mulheres, dos católicos moderados e do eleitor de baixa renda que não quer radicalização. Se Neto esconder Roma demais, pode reacender a desconfiança da direita e repetir o erro emocional de 2022.

Por isso, a aliança precisa ser precisa. Roma não pode comandar o tom da campanha de Neto. Mas também não pode ser tratado como apêndice incômodo. Ele precisa ter função: ser o canal de confiança com a direita e, ao mesmo tempo, o nome que amplia o discurso de alternância para o Senado.

O nó de João Roma é esse: ele precisa continuar sendo reconhecido como o candidato de Bolsonaro, mas não pode ser apenas isso. Precisa ser o candidato do eleitor que quer derrotar o PT, mesmo que esse eleitor não viva dentro do bolsonarismo. Precisa falar com quem quer mudança, com quem teme a concentração de poder, com quem acha que a Bahia precisa de outro ciclo.

No fundo, Neto e Roma estão presos à mesma equação. Neto precisa de Roma para consolidar a direita. Roma precisa de Neto para alcançar o eleitorado que ainda não chegou nele. Um sem o outro fica incompleto.

A eleição para governador tende a ser direta desde o início. Sem uma terceira via competitiva, não haverá muito espaço para ensaio. O eleitor será chamado a escolher entre continuidade e mudança já no primeiro turno. Nesse cenário, Roma precisa deixar de ser apenas um nome de campo ideológico e passar a ser parte indispensável da virada.

Porque dentro da bolha ele já é aceito.

Para vencer, precisa ser compreendido fora dela. Tem de se lambuzar e deixar o dendê do acarajé sujar a camisa social azul clara que já é a sua marca!

Bahia.Ba