{"id":27647,"date":"2021-11-21T18:15:02","date_gmt":"2021-11-21T21:15:02","guid":{"rendered":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/?p=27647"},"modified":"2021-11-21T18:15:02","modified_gmt":"2021-11-21T21:15:02","slug":"conversa-de-barbearia-livro-de-jose-olivio-traz-registro-historico-de-alagoinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/conversa-de-barbearia-livro-de-jose-olivio-traz-registro-historico-de-alagoinhas\/","title":{"rendered":"Conversa de Barbearia, livro de Jos\u00e9 Olivio traz registro hist\u00f3rico de Alagoinhas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Leia esses e outros artigos no site <a href=\"http:\/\/www.importantever.com.br\/\">ImportanteVer<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Deveria ter escrito um s\u00f3 artigo sobre Jos\u00e9 Ol\u00edvio e Luiz Eudes(Cangalha do Vento) que se chamaria &#8220;Conversa com os poetas&#8221;, ficaria muito longo, resolvi dividir e falar de cada um por vez. No entanto, notei que lendo Ol\u00edvio compreendi Eudes, assim como lendo Eudes compreendi Ant\u00f4nio Torres. Tudo come\u00e7a com os contadores de causos, e o que s\u00e3o os barbeiros sen\u00e3o contadores de causos. Ol\u00edvio foi certeiro, a barbearia \u00e9 o ambiente mais liter\u00e1rio que existe, superando os balc\u00f5es dos bares. Reina soberano porque n\u00e3o compete com as bibliotecas, pois aqui se trata da literatura popular e digo mais, de tradi\u00e7\u00e3o oral, como eram no princ\u00edpio os cord\u00e9is. E Jos\u00e9 Ol\u00edvio \u00e9 cordelista tamb\u00e9m.<\/p><div class=\"newsi-conteudo_19\" id=\"newsi-3001866994\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/prefeituraalagoinhas?igsh=YzgzdDJ1bWR3aWI4\" aria-label=\"SAVE_20251006_221555\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-rotated.jpg\" alt=\"\"  srcset=\"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-rotated.jpg 1140w, https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-300x52.jpg 300w, https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-1024x177.jpg 1024w, https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-768x133.jpg 768w, https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-600x104.jpg 600w, https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-696x120.jpg 696w, https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SAVE_20251006_221555-1068x185.jpg 1068w\" sizes=\"(max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" width=\"1140\" height=\"197\"   \/><\/a><\/div>\n<p>Mas voltando um pouco, compreendo mais ainda Eudes lendo Ol\u00edvio, porque ele sustenta a tese da poetisa Cristiane Alves de que a literatura de S\u00e1tiro Dias deve muito ao contadores de Causo. Deixando claro que ela e Luiz Eudes s\u00e3o dessa pequena cidade da nossa regi\u00e3o. Minha av\u00f3, Maria Eremita Vieira Lopes, tamb\u00e9m era de l\u00e1 e\u00a0 tia da m\u00e3e de Ant\u00f4nio Torres e do jornalista Humberto Vieira, minha m\u00e3e era prima de ambos, da\u00ed talvez venha meu microsc\u00f3pico talento para as letras, n\u00e3o suficiente para ser escritor, mas do tamanho para me virar sofridamente como jornalista. O livro de Ol\u00edvio\u00a0 me lembrou de minha av\u00f3, que nos contava causos e nos ensinava m\u00fasicas populares bel\u00edssimas, legado certamente de S\u00e1tiro Dias.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ol\u00edvio \u00e9 muito alagoinhense, mas nasceu em Catu, filho de Ol\u00edvio Lima, funcion\u00e1rio da Petrobras, mas tamb\u00e9m carpinteiro e bodegueiro da Ramela, respons\u00e1vel com o irm\u00e3o pela festa de Reis da localidade. Ol\u00edvio j\u00e1 nasceu em ambiente cultural. A m\u00e3e biol\u00f3gica era Am\u00e9lia Ramalho, dona Dai e a av\u00f3, uma rendeira retirante de Pernambuco. Uma linhagem perfeita para produzir um poeta, um querido poeta que sai pelas ruas de Alagoinhas em longos passeios, visitando os amigos e vendo a cidade se movendo, isso \u00e9 &#8220;Conversa de Barbearia&#8221;. Vou falar um pouco desse livro e, se der, de alguns cord\u00e9is importantes, porque o Amendoim Torrado, seu outro livro de cr\u00f4nicas, li h\u00e1 bastante tempo. Seu primeiro livro foi \u00c1lbum Po\u00e9tico de Alagoinhas de 1985, s\u00e3o 36 anos de poesia e narrativas que mostram n\u00e3o s\u00f3 a vida de Alagoinhas e regi\u00e3o como da Bahia, tendo significativa produ\u00e7\u00e3o no segmento esp\u00edrita, ligada \u00e0 trajet\u00f3ria de Divaldo Franco.<\/p>\n<p>No cordel, ele \u00e9 impressionante ao colocar conceitos em sextilhas, saindo da express\u00e3o tradicional de narrativas, hist\u00f3rias e est\u00f3rias, e da descri\u00e7\u00e3o de personalidades ou personagens. Sua refer\u00eancia tanto em cr\u00f4nica quanto em poesia \u00e9 Carlos Drummond de Andrade e Castro Alves \u00e9 seu autor de cabeceira. O vocabul\u00e1rio \u00e9 refinado, mas n\u00e3o a ponto de esgar\u00e7ar a tessitura\u00a0da oralidade.<\/p>\n<p>Em &#8220;Conversa de Barbearia&#8221;, ele faz o registro hist\u00f3rico de uma gera\u00e7\u00e3o que poderia se chamar &#8220;os amigos dos nossos pais, dos tios ca\u00e7ulas&#8221; e da sua pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o. Ol\u00edvio fala de uma Alagoinhas antes da passagem do mil\u00eanio, tanto que uma de suas cr\u00f4nicas trata disso. Tamb\u00e9m conta a hist\u00f3ria da cidade pela vida da gente comum, isso me parece o mais relevante de seu trabalho e do seu olhar, \u00e9 um completo paralelo \u00e0 hist\u00f3ria oficial. Trata da criatividade dessa gente, da inventividade, tanto que fala de seus artistas, mas vai at\u00e9 periferia e insere a moradora de rua, que residia em um sof\u00e1 e da louca que fazia instala\u00e7\u00f5es bel\u00edssimas nas encruzilhadas da cidade, que, lembro, intrigava muito o nosso artista pl\u00e1stico Lu\u00eds Ramos. Nesse livro est\u00e1 registrado o fazer do povo, sua engenhosidade, sua maneira de lidar com a vida que lhe era posta e de transform\u00e1-la em algo alegre, festivo, caloroso e humano.<\/p>\n<p>Ol\u00edvio vai l\u00e1 no reposit\u00f3rio humano da cidade, na sua matriz, no que lhe d\u00e1 vida, esse personagem que pode ser chamado de um sertanejo urbanizado, um agrestino-litor\u00e2nico, andando sobre as \u00e1guas, em um mar de \u00e1gua. N\u00e3o um povo lascivo, como o litor\u00e2neo, nem contido como o sertanejo, mas dado a ousadia e ao flerte &#8220;discarado&#8221;. O ambiente \u00e9 masculino, como nas barbearias, mas h\u00e1 sempre uma passada de olho em um rabo de saia. E os amores clandestinos e os dramas das trai\u00e7\u00f5es est\u00e3o acondicionados, lembrando que os cornos de Alagoinhas s\u00e3o causos de desafiar a fic\u00e7\u00e3o, daria um livro &#8220;Mulheres fogosas e homens atrevidos&#8221;, com um cap\u00edtulo especial para o &#8220;O homem que seduziu a freira&#8221;.<\/p>\n<p>Ol\u00edvio, claro, homenageia todos os barbeiros da cidade e fala da habilidade que todos tinham de contar os causos sem parar por um segundo com a tesoura. Sua linha mel\u00f3dica lembra Ariano Suassuna contando seus causos e tamb\u00e9m Drummond em\u00a0 &#8220;A morte do leiteiro&#8221; e &#8220;O caso do vestido&#8221;.<\/p>\n<p>Na barbearia de L\u00edlio havia um cartaz, &#8220;aqui se se re\u00fanem ca\u00e7adores, pescadores e outros mentirosos&#8221; . Um rapaz foi fazer a barba e como tinha o rosto murcho, o barbeiro deu-lhe uma bolinha para por na boca. Terminado o servi\u00e7o, perguntou: &#8211; n\u00e3o acontece de engolirem a bolinha? Respondeu: &#8211; sim, mas devolvem depois. Um outro queria cortar s\u00f3 a barba e deixou clara sua vontade. No final foi perguntado: &#8211; o bigode vai ou fica? Ele disse: &#8211; fica. O bigode foi rapado devido ao duplo sentido e a briga foi grande.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica social est\u00e1 presente em todo o momento: &#8220;Por que o governo matraca tanto os servidores, j\u00e1 que eles s\u00e3o, no final das contas, governo tamb\u00e9m?&#8221;. &#8220;Virou um moderado como acontece com um partido pol\u00edtico intransigente quando\u00a0 na oposi\u00e7\u00e3o, mas que quando chega ao poder fica brando&#8221;. Sobre o servi\u00e7o psiqui\u00e1trico: &#8220;Tratamento antigamente era na base de choque e havia casos de pacientes ficarem at\u00e9 mesmo acorrentados&#8221;.<\/p>\n<p>Lembrou de figuras marcantes como a professora Edil da Uneb, Z\u00e9 Carlos, gerente do Cine Azi, Z\u00e9 Lib\u00f3rio, vereador por 24 anos, com seus 407 afilhados, que no fim da vida virou ex\u00edmio contador de piadas, Raimundo Espinheira, radialista e cantor de serestas, Efeerre Dias, radialista e poeta, Ary Concei\u00e7\u00e3o, um grande intelectual e artista, pai da, n\u00e3o menos talentosa, fot\u00f3grafa Totinha, Luciano Lobo e tantos outros. &#8220;Tire seu voto da toca, vote em Noca&#8221;, lembrando da vereadora, uma das primeiras da cidade.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m percorre personagens emblem\u00e1ticos como o cego vendedor de jornal, um paralelo a Jorge Lu\u00eds Borges, que, j\u00e1 sem a vis\u00e3o, era diretor de uma importante biblioteca na Argentina. As tradi\u00e7\u00f5es como a sexta-feira da paix\u00e3o: &#8220;Todos acord\u00e1vamos pisando diferente, porque era o dia em que Jesus morreu&#8221;; a festa da Mocidade na pra\u00e7a Santa Isabel. Ele consegue colocar no papel com maestria todo ambiente do jogo de domin\u00f3 na pra\u00e7a JJ Seabra, ali\u00e1s Ol\u00edvio nos faz ver com nitidez a cena se desenrolando, como tamb\u00e9m no caso da mo\u00e7a que ele observa no coletivo. Recorda ao mesmo tempo das filarm\u00f4nicas Euterpe e Ceciliana, que enchiam o local aos domingos, antes da televis\u00e3o e fala ainda das sess\u00f5es de cinema. O livro todo \u00e9 muito engra\u00e7ado, mas chega ser hil\u00e1rio, quando conta sobre como as pessoas trocam seu nome ou no caso do neto que queria ir para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Tem frases tamb\u00e9m marcantes, a que mais gosto &#8220;Alagoinhas \u00e9 mesmo uma cidade burocrata&#8221;. Falando sobre a moradora de rua: &#8220;suas paredes eram o breu da noite&#8221;. Referindo-se a jornais velhos que amarelam, ele encaixa essa: &#8220;Quando menino e cheio de ilus\u00e3o (ela tamb\u00e9m amarela com o tempo), costumava brincar de &#8220;Gueralt&#8221;(&#8230;). Ou essa bastante datada: &#8220;ouvir que um colega de pelada pegou uma menina &#8220;sem defeito nenhum&#8221;. Bom, &#8220;Conversa de Barbearia&#8221; cumpre ao que se destina, fazer a gente voltar no tempo, mais que isso, se sentir em outro tempo, que\u00a0 deu origem \u00e0 gera\u00e7\u00e3o do novo mil\u00eanio e foi nossa r\u00e9gua e compasso. Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei do cordel, prometo um artigo especial sobre eles.<\/p>\n<p>Por Paulo Dias<\/p>\n<div class='share-to-whatsapp-wrapper'><div class='share-on-whsp'>Share on: <\/div><a data-text='Conversa de Barbearia, livro de Jos\u00e9 Olivio traz registro hist\u00f3rico de Alagoinhas' data-link='https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/conversa-de-barbearia-livro-de-jose-olivio-traz-registro-historico-de-alagoinhas\/' class='whatsapp-button whatsapp-share'>WhatsApp<\/a><div class='clear '><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia esses e outros artigos no site ImportanteVer Deveria ter escrito um s\u00f3 artigo sobre Jos\u00e9 Ol\u00edvio e Luiz Eudes(Cangalha do Vento) que se chamaria &#8220;Conversa com os poetas&#8221;, ficaria muito longo, resolvi dividir e falar de cada um por vez. No entanto, notei que lendo Ol\u00edvio compreendi Eudes, assim como lendo Eudes compreendi Ant\u00f4nio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":27648,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[29,167],"tags":[],"class_list":["post-27647","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-exclusivas"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27647"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27647\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27649,"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27647\/revisions\/27649"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27648"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/newsinfoco.com.br\/inicio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}