O ex-senador e especialista em planejamento Waldeck Ornélas lança, no próximo dia 23 de abril, em Salvador, o livro Bahia: Urgências do Presente, obra que reúne artigos publicados nos últimos anos sobre os principais desafios estruturais do estado.
O lançamento será realizado na Livraria Leitura do Salvador Shopping, e a obra também estará disponível para compra online.
A publicação parte de uma constatação recorrente ao longo de sua trajetória, a permanência de problemas históricos, especialmente na área de infraestrutura. Segundo o autor, embora a maior parte dos textos seja recente, a inclusão de artigos mais antigos ajuda a evidenciar a continuidade dos entraves.
“São artigos basicamente dos últimos três anos. Agora, como alguns assuntos permanecem pendentes há muito tempo, eu resgatei dois ou três artigos de dez anos atrás que já tratavam desses mesmos temas”, explicou.
Para ele, o problema não é apenas técnico, mas também de decisão. “O que estamos vendo é um processo decisório muito lento, uma ausência de prioridade, e isso vai comprometendo o desempenho da economia do Estado. Temos pendências que estão aí há muito tempo e que não são resolvidas”, afirmou.
A obra também nasceu da percepção de que os textos publicados isoladamente perdiam parte do seu impacto. “As pessoas leem artigos semanais e muitas vezes passa despercebido que eles têm uma certa conexão. A reunião em livro permite que sejam considerados em bloco. Se alguém quiser estudar um tema, vai encontrar cinco, dez, vinte artigos sobre o mesmo assunto, em momentos diferentes”, disse.

Desconexão logística da Bahia
No centro da análise está a desconexão logística da Bahia, apontada por Ornélas como um dos principais entraves ao desenvolvimento. Ele destaca a posição estratégica do estado no território nacional, mas avalia que essa vantagem é anulada pela precariedade da infraestrutura.
“A Bahia faz a ligação entre o Nordeste e o Sudeste. Na medida em que está com suas vias obstruídas ou inexistentes, compromete a própria economia nacional”, afirmou.
“Nós temos dois eixos rodoviários, a BR-116 e a BR-101, um ferroviário e a hidrovia do São Francisco. Nenhum dos quatro está em condições adequadas de funcionamento. A hidrovia está desativada, a ferrovia está praticamente inexistente e as rodovias estão estranguladas”, disse.
Segundo ele, esse cenário provoca o isolamento de áreas estratégicas. “A região metropolitana de Salvador, o sistema portuário da Baía de Todos-os-Santos e o polo petroquímico de Camaçari estão isolados logisticamente do resto do país. Com isso, a economia fica estrangulada”, completou.
Melhorias não foram suficientes
Apesar de reconhecer avanços no setor portuário, Ornélas avalia que as melhorias não foram suficientes para gerar crescimento sustentado. “Houve modernização, ampliação de capacidade, dragagem, mas tudo isso foi feito para atender à demanda presente. Existe uma demanda reprimida que ocupa imediatamente essas novas capacidades, então não há expansão efetiva da economia”, explicou.
A repetição desses problemas ao longo do tempo é um dos pontos centrais do livro, reforçada pela escolha de organizar os textos em ordem cronológica invertida.
“A ordem é de hoje para o passado. O que eu quis mostrar foi exatamente isso: os assuntos permanecem abertos. Essas agendas não se concluem, não se encerram. Mesmo decisões tomadas agora não têm efeito imediato. A renovação de uma concessão ferroviária, por exemplo, pode levar três, cinco anos para apresentar alguma melhoria”, disse.
Impacto do tempo
O autor também chama atenção para o impacto do tempo na implementação de projetos estruturantes. “Você vê que o tempo é terrível nesse negócio, é mortal. Os projetos não se concretizam imediatamente. Uma concessão sai hoje, mas obra relevante só aparece anos depois”, pontuou.
Além da infraestrutura, a obra recupera o debate sobre o desenvolvimento regional do Nordeste, tema que marcou gerações anteriores de planejadores, como Celso Furtado. Ornélas avalia que esse projeto perdeu força ao longo das décadas.
“O Nordeste sempre foi o sonho da minha geração, mas esse sonho de desenvolvimento regional se perdeu ao longo do tempo. Não se concretizou”, afirmou.
Com o lançamento do livro, Ornélas diz manter o compromisso com o debate público, agora fora da política institucional. “Eu deixei a política há mais de 20 anos, mas não me desliguei do meu compromisso com a Bahia. O que eu pretendo é, como ativista na área técnica, continuar contribuindo para o desenvolvimento do estado”, concluiu.



























