Na tarde de quarta-feira (11), foi realizada na Câmara Municipal uma audiência pública, proposta pela vereadora Juci Cardoso, para discutir a situação e a manutenção do Centro de Cultura de Alagoinhas. O evento contou com representantes da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT), da classe artística e do deputado estadual Radiovaldo Costa.

Na abertura, a vereadora Juci Cardoso destacou a importância do equipamento cultural e sua própria relação com a produção cultural por meio da capoeira. Para a parlamentar, alvo recente de ataques que buscaram desqualificar sua atuação legislativa, ser capoeirista é motivo de orgulho.

“A capoeira mudou minha vida, pois a cultura, sobretudo para territórios periféricos, como aquele de onde venho, é fundamental e se constitui como direito. Cultura é direito”, declarou.

Em seguida, Amanda Cunha, superintendente de Desenvolvimento Territorial de Cultura da SECULT, apresentou um panorama da situação do Centro de Cultura e reafirmou que não há qualquer planejamento por parte do Governo do Estado para o fechamento do equipamento.

Segundo ela, a gestão estadual trabalha para manter os espaços culturais em funcionamento e avançar no processo de requalificação da estrutura existente.

“Não há desejo do Governo do Estado, não há planejamento e não há nenhuma ação para fechar o Centro de Cultura de Alagoinhas. Pelo contrário, a missão dada pelo governador foi reabrir espaços culturais que estavam fechados e fortalecer aqueles que já estão em funcionamento”, afirmou.

Durante a apresentação, também foram expostos dados sobre a movimentação cultural do espaço. De acordo com a SECULT, somente em 2025 o Centro de Cultura registrou cerca de 50 mil pessoas circulando pelo equipamento, com aproximadamente 200 atividades realizadas e mais de 350 sessões culturais.

A diretora de Espaços Culturais da SECULT, Larissa Santana, reforçou a relevância do equipamento para a dinâmica cultural do município e do território.

“O Centro de Cultura de Alagoinhas é um espaço fundamental para a produção artística da região. Nosso trabalho é garantir que esses equipamentos estejam cada vez mais dinamizados, pulsando cultura e arte”, destacou.

Ainda durante a audiência, Amanda Cunha apresentou o projeto arquitetônico de requalificação do equipamento, que prevê a criação de um parque cultural, ampliando o uso do espaço e integrando áreas de convivência, formação artística e atividades culturais. Segundo a superintendente, o projeto executivo já foi elaborado e prevê um investimento estimado em cerca de R$ 10,5 milhões.

“O projeto executivo da reforma já está pronto. Agora estamos trabalhando na articulação política e orçamentária para viabilizar os recursos necessários para a execução da obra”, explicou.

Engajamento

O debate foi impulsionado pela repercussão nas redes sociais do vídeo publicado pela artista Laysa Correia, que mobilizou agentes culturais e representantes do poder público em torno da necessidade de permanência do Centro de Cultura.

Ao se pronunciar, Laysa Correia agradeceu a presença do público e reforçou a importância da mobilização coletiva em defesa do equipamento. Para ela, o Centro de Cultura de Alagoinhas extrapola os limites do município e cumpre papel fundamental na dinâmica cultural de toda a região.

“Eu espero que cada pessoa que está aqui hoje carregue no coração a importância desse movimento. Todos nós queremos ver o Centro de Cultura funcionando plenamente, com os artistas ocupando aquele espaço, produzindo, criando e apresentando”, afirmou.

Na sequência, o presidente do Conselho Municipal de Cultura, Neilton José dos Santos, afirmou que o Centro de Cultura segue sendo o principal ponto de apoio para os artistas do município. Segundo ele, a limitação do espaço compromete diretamente a produção cultural local e ameaça o futuro da arte na cidade.

“Não estamos aqui para brigar por um simples espaço físico, mas para lutar pela revitalização do Centro de Cultura, para garantir aquilo que é nosso direito: ter um espaço digno para mostrar nossa arte, desenvolver nosso trabalho e apresentar nossa cultura”, declarou.

Representando a Associação de Músicos de Alagoinhas e a Academia de Letras e Artes de Alagoinhas, Karlinhos Zambê avaliou que a reforma do Centro de Cultura se arrasta há anos e defendeu o reconhecimento das responsabilidades institucionais diante da demora no avanço do processo. Ele também ressaltou o papel desempenhado por Laysa na mobilização que deu visibilidade ao tema.

“Foi preciso chegar a um momento como este, com uma ativista cultural como Laysa mobilizando a comunidade, para que essa pauta ganhasse força. Mas o que não dá para fazer é omitir a responsabilidade da Secretaria de Cultura diante de uma reforma que se arrasta há quase cinco anos”, pontuou.

Representando o 19º Batalhão do Corpo de Bombeiros, o capitão Júlio Cesar esclareceu a situação técnica do equipamento e informou que o Centro de Cultura não está impedido de funcionar, embora opere com ressalvas previstas no Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros Militar (AVCB), emitido em novembro de 2025 e válido por um ano.

De acordo com ele, entre as inconsistências verificadas estão a ausência do sistema de detecção e alarme de incêndio e a inoperância do sistema de hidrantes.

“O Centro de Cultura não está impedido de funcionar. Ele funciona com ressalvas, conforme previsto no próprio AVCB”, explicou.

Coordenadora do Centro de Cultura, Francisca Moraes, que no ato representou a deputada estadual Ludmila Fiscina, lembrou que a parlamentar já havia encaminhado ofício solicitando a reforma do espaço antes mesmo de sua chegada à coordenação. Segundo ela, houve avanço técnico no projeto, que deixou de prever apenas uma reforma pontual e passou a incorporar a proposta de um parque cultural.

“Nunca houve qualquer decisão de fechamento definitivo do Centro de Cultura. O que existe é a necessidade de cumprimento das normativas exigidas pelo Corpo de Bombeiros. Se houver fechamento em algum momento, será para a realização da reforma”, destacou.

Vice-presidente da Casa do Poeta, Jorge Amado, ressaltou que a comunidade cultural acompanha há bastante tempo o debate sobre a revitalização do equipamento. Em seu posicionamento, demonstrou preocupação com a ausência de previsão concreta para o início e a conclusão das obras, sobretudo diante da necessidade de continuidade das atividades culturais.

“O Centro de Cultura pertence a Alagoinhas. Muitas pessoas têm esse espaço como se fosse um filho, pela história que ele representa. Com toda essa mobilização que estamos vendo aqui hoje, eu acredito que as coisas vão caminhar”, disse.

Em seu pronunciamento, o deputado estadual Radiovaldo Costa reconheceu que a audiência pública foi motivada diretamente pela repercussão do vídeo produzido por Laysa e destacou a importância da mobilização social para fazer o tema ganhar centralidade no debate público. O parlamentar também apontou as dificuldades orçamentárias para viabilizar integralmente a obra apenas com recursos estaduais.

“Foi justamente graças a um vídeo de Laysa que audiência pública está acontecendo hoje. Se não fosse aquele vídeo, provavelmente essa audiência não estaria acontecendo. Agora o que precisamos é nos unir, para que possamos efetivamente encontrar uma solução para esse problema”, disse.

Representando a Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo, Maria Tereza reafirmou o compromisso da gestão municipal em contribuir com o processo de apoio e reivindicação pela reforma do equipamento. Ela ressaltou que o Centro de Cultura é também espaço de formação, informação e sustento de diversas famílias.

“Tudo o que for necessário para garantir que a vida do Centro de Cultura continue existindo, nós contribuiremos também. Cultura não é apenas lazer ou entretenimento; cultura também é formação, informação e sustento para muitas famílias”, afirmou.

A professora Iraci Gama relembrou a origem histórica do Centro de Cultura de Alagoinhas, destacando que o equipamento nasceu da mobilização dos artistas do município ainda no fim da década de 1970. Para ela, o espaço precisa ser respeitado por sua potência histórica, cultural e simbólica.

“O nosso Centro de Cultura precisa ser respeitado por sua origem e por sua potência histórica e cultural. Todos estaremos juntos nessa luta, porque é fundamental colocar como prioridade o Centro de Cultura de Alagoinhas”, declarou.

O vereador Cláudio Abiude também manifestou apoio à pauta e lembrou sua trajetória ligada à arte e à vivência de dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores da cultura.

“Que essa reforma venha logo. Eu me junto a esse processo também. E, principalmente, que seja uma reforma breve, porque os artistas precisam desse espaço”, pontuou.

Em nova manifestação, Laysa Correia detalhou o processo de mobilização que antecedeu a audiência e relembrou sua própria trajetória ligada ao Centro de Cultura. Ela afirmou que sua história artística e profissional foi construída a partir das experiências vividas no equipamento e defendeu a continuidade da mobilização até o início efetivo das obras.

“Tudo começou no Centro de Cultura. Eu ganhei dinheiro no Centro de Cultura, foi fonte de renda para mim, com a minha arte. Nosso objetivo é colocar trabalhadores ainda este ano dentro do Centro de Cultura. E nós vamos conseguir”, completou.

Após as manifestações da classe artística presente, a vereadora Juci Cardoso apresentou os encaminhamentos advindos da audiência. Entre eles, destacou a formalização de uma comissão mista para acompanhar os desdobramentos do debate, avaliar propostas de intervenções a curto, médio e longo prazo, contribuir com a captação de recursos e promover discussões sobre orçamento público e compras públicas.

A parlamentar também defendeu o avanço do termo de cooperação técnica com a Prefeitura, a retomada do colegiado de gestão participativa do Centro de Cultura e a articulação de uma agenda em Brasília, junto ao Ministério da Cultura, para fortalecer a busca por recursos para a requalificação do equipamento.

“Um povo mobilizado faz com que os políticos eleitos se movimentem de acordo com as demandas da população. É preciso conhecer o orçamento público, acompanhar, cobrar e compreender que emenda parlamentar não é dinheiro de político, é dinheiro público. A cultura precisa aprender a se unir na diversidade, porque um povo unido pressiona o poder público e muda as prioridades do orçamento”, concluiu.