Amigo leitor, hoje pela manhã um ouvinte do programa Primeira Mão, programa este que apresento de segunda a sexta, das 8h as 10h da manhã na rádio Ouro Negro 100,5 FM, me fez um questionamento acerca dessa discussão entre Bolsonaro x Lula, esquerda x direita, que provocou um comentário da minha parte que julguei pertinente sintetizar e trazer aqui também para a coluna que escrevo há mais de 10 anos neste site News Infoco.

É triste para mim perceber que a discussão política no Brasil transformou-se em um espetáculo raso. Diariamente, debates sobre “esquerda versus direita”, “Lula versus Bolsonaro” ou rivalidades partidárias tomam conta das redes sociais e das bancadas de jornalismo. No entanto, enquanto a população se divide em torcidas organizadas, a realidade concreta do cidadão permanece inalterada: as contas não fecham, os preços sobem e o sistema político demonstra uma incapacidade crônica de entregar melhorias reais.

Quero dizer a você leitor que a polarização simplista mascara uma verdade desconfortável: o problema do Brasil não é puramente ideológico, mas estrutural e sistêmico. Se tem algo que a história nos mostra neste país é que, independente de quem ocupe a Presidência, as estruturas de privilégios, o loteamento de cargos e a barganha política permanecem intactos.

A crise de representatividade atingiu um nível em que situações anômalas passam a ser enxergadas como soluções. O cenário recente no Rio de Janeiro, onde intervenções juridicas e medidas fora do rito habitual precisaram ser adotadas para contornar a contaminação da política local por esquemas de corrupção e milícias, expõe uma ferida aberta. Quando a população celebra o fato de um gestor, sem compromissos partidários, sem ter sido eleito pelo voto popular,  exonerar milhares de cargos comissionados e promova o distrato de inúmeros contratos suspeitos para fazer a máquina pública funcionar, o sinal de alerta acende: a democracia eleitoral representativa, da forma como está desenhada, perdeu sua eficácia primária. Um interventor consegue ter maior eficácia do que um representante escolhido pelo povo, justamente por não ter compromissos político-partidários.

E vamos ser honestos com nós mesmos amigo leitor, quando a política tradicional se resume à troca de apoio por cargos e favorecimentos, como vemos acontecer, o cidadão comum é quem paga a conta. A economia do dia a dia reflete o colapso: trabalhadores enfrentam dificuldades básicas de consumo, e a necessidade de parcelar despesas corriqueiras e alimentícias no cartão de crédito tornou-se o retrato fidedigno de uma economia estrangulada por ineficiência e corrupção.

Outro elemento crítico do cenário contemporâneo é o ambiente de apreensão que cerca a liberdade de expressão e a crítica às instituições. O papel dos poderes constitutivos — em especial do Judiciário — deve ser o de garantir direitos fundamentais, e não o de criar um clima onde o receio de retaliações desestimule o debate público fundamentado.

Uma democracia saudável exige que o povo possa criticar seus governantes, juízes e instituições sem o temor sistemático de sanções desproporcionais. Quando a população e a imprensa se sentem tolhidas em apontar excessos, o próprio conceito de regime democrático fica enfraquecido.

Debater se o país deve caminhar para a esquerda ou para a direita tornou-se uma discussão estéril enquanto as engrenagens da República continuarem podres. A verdadeira renovação necessária no Brasil não é a mera troca de nomes nas urnas a cada quatro anos, mas a reformulação das regras do jogo político e institucional que passa por três principais eixos: criação de mecanismos mais incisivos apara ação da democracia direta, é preciso criar ferramentas eficazes de recall político, permitindo que o eleitor destitua governantes e representantes que não cumpram suas promessas ou incorram em desvios éticos antes do fim do mandato; responsabilização das Altas Cortes, com estabelecimento de limites claros e instrumentos de controle social e legislativo sobre decisões monocráticas dos tribunais superiores, garantindo maior transparência e alinhamento às leis fundamentais; e o fim do patrimonialismo, com corte radical de cargos comissionados e privilégios na administração pública, desarticulando o balcão de negócios que sustenta a governabilidade no modelo atual.

Continuar preso à rivalidade ideológica é aceitar a manutenção do status quo. Enquanto a sociedade brasileira dedicar sua energia a defender líderes políticos em vez de exigir a reforma profunda de um sistema falido, o país continuará refém do subdesenvolvimento e da instabilidade institucional.

Escrito por Caio Pimenta, advogado, âncora do programa Primeira Mão, da radio Ouro Negro 100,5 FM. Ele também escreve sua coluna no site News Infoco, do qual é editor- chefe e dirige a radio web 2 de julho.